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sexta-feira, 2 de março de 2007

O tempo pára, sim

Por volta das três da manhã, Alessandro retornava de mais uma longa jornada de trabalho. Após a morte de seu pai, ele teve de tomar as rédeas de casa, e o tempo para se dedicar aos estudos foi se tornando cada vez mais escasso. Suas duas horas e meia de sono se faziam muito piores do que se ele passasse a noite acordado. Sua indesejável rotina consistia em levar sua irmã mais nova à escola logo cedo, chegar quinze minutos atrasado ao trabalho, trocar faíscas com o seu chefe e, pelo fim da manhã, deixar parte do trabalho para ser concluído no próximo turno. O problema é que assim ele não cumpria as metas como deveria, levando a uma redução significante em seu já baixo salário. Seus almoços duravam aproximadamente sete minutos, uma vez que ele precisava buscar sua irmã na escola e mal sobrava tempo para outras atividades. Por conta disto, diariamente era obrigado a ouvir lamúrias dela, já que ela era obrigada a esperar por quarenta e cinco minutos pelo seu irmão. Depois de quatro ônibus tomados ele retornava ao seu ofício, em um escritório de contabilidade, onde o stress pairava sobre o ambiente, criando na mente de Alessandro uma tensão que só aumentava a cada dia e a cada calhamaço a mais em sua mesa. Lá pelas quatro, ele já sabia o que iria acontecer: seu chefe, um homem calvo, forte, de estatura mediana e de expressão não-amigável entraria em seu cubículo e, em um surto descontrolado, bradaria contra Alessandro, atirando-lhe os piores impropérios possíveis e mandando-o refazer todos os seus relatorios. Sete e quarenta e cinco ele concluía tudo.
Sua aula começava às sete.
Já cansado fisica e emocionalmente, Alessandro seguia o seu caminho até a faculdade, levando com esforço sua pasta lotada de anotações (e Alessandro era um rapaz franzino, para piorar ainda mais a situação).
Oito e meia era hora de sair. Sua irmã precisava dormir e isto só acontecia com ele por perto. No fim das contas, restavam trinta minutos de aula, que ele usava para tentar retomar as anotações perdidas e sanar dúvidas das aulas anteriores. Por morar em um bairro afastado, poucas eram as linhas de ônibus praquela região naquela hora. Era necessária uma caminhada de vinte e cinco minutos até o ponto mais próximo, que se localizava em uma ruela de iluminação precária e casas com muros baixos e paredes maltratadas. Alessandro se via sempre apreensivo, com receio de ser abordado a qualquer hora pelos marginais das redondezas. Malditos moleques aqueles.
Sentado no ponto de ônibus e absorto em suas leituras acadêmicas, recebe uma mensagem no celular do escritório: "preciso de você aqui", dizia o seu chefe. Como era costumeiro, deu meia-volta e partiu para mais vinte minutos de caminhada, desta vez para outro ponto de ônibus. Não fora assaltado, mas considerava-se em perigo ainda. Hoje em dia não se pode mais vagar por aí como antes.
Tarde da noite e Alessandro se via novamente aonde o seu dia começou, embora agora a rua inteira se encontrasse de luzes apagadas, exceto pelo pequeno escritório que Alessandro começava a repudiar. "Por culpa sua perdi dez mil hoje", exagerava o chefe, com sua camisa de botões suada e gravata afrouxada. Alessandro sabia que a culpa não era dele, e sabia também dos problemas de seu chefe, que além de fracassado era corno, mas ao invés de arguir com ele, fingiu se lamentar e recomeçou o seu trabalho do zero. O tempo passou lentamente, talvez até mais lentamente do que o resto do dia, e o clima pesado instaurado na saleta perdurou até as cinco e meia, quando Alessandro, contra a vontade de seu patrão, deixou o escritório para buscar sua irmã. Tomou um rápido e modesto café da manhã e partiu com ela do decadente casebre para deixá-la na escola. Durante o caminho, no ônibus, refletiu sobre o quão sozinha ela era, afinal Alessandro era a única pessoa em sua vida. Dentre todos os parentes, era o único capaz de criar uma criança. A mãe tinha se tornado uma viciada e a irmã, prostituta. Todas os deixaram.
Logo, ele estaria novamente no escritório de contabilidade. O dia se arrastou exatamente como os anteriores, porém suas costas pareciam carregar duas toneladas a mais. Decidiu não ir para a aula. Nem para casa. No dia seguinte, não foi ao trabalho. Ou a qualquer outro lugar.

10 comentários:

Lucas Costa disse...

muito, mass muito bom mesmo ;D

nem parece que tu escreveu cara, mto bom ;D, mais plx

Anônimo disse...

Velho, dá pra sentir o desespero O_O

Tiago disse...

e nem precisa de tudo isso, vai dizer?

Filipe Longarete disse...

aposto que ele deu uma paradinha no bar, fala serio vai...
auahuahauhau

foda, angustiante

Youta disse...

Cara...foda ao extremo.

Youta disse...

Por sinal...
Como é que tu pôs a barra de pesquisa no blog?
não consigo botar lá.

EDINHO disse...

BOA !!!

ÔTIMA CRÔNICA! Prepare-se para um dia lançar um lçivro de crônicas !

PS. Após ler uma inúmera quantidade de palavras e frases mil, vou reservar o resto do tempo para clicar nos links do google ! FALOW

EDINHO disse...

AH !

A FOTO DA BRAHMA É TENTADORA ! Estou com sede ha ha ha !

Rodrigo disse...

então o kra resolveu todos os problemas dele?

Rodrigo disse...

tomara que sim