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Domingo, 12 de Julho de 2009

Domingos de Fé

rodrigo diz:
wassap
Kari diz:
suuup nigger
rodrigo diz:
o que nos traz nessa linda manhã dominical?
foi à missa, suponho
como de costume, certo?
Kari diz:
Com toda certeza, fui orar para jesus nosso senhor e lhe entregar o dizimo como sempre, quero ter uma boa casa quando eu for para o céu.
rodrigo diz:
ah, minha cara! compartilho de tais anseios
Kari diz:
Fico feliz irmão, logo jesus retornará e todos os incrédulos pagarão por não ter fé
E nós fiéis todos estaremos no aconchego de nosso senhor bom Deus
rodrigo diz:
de fato
os pagãos hão de sofrer sob a ira do Senhor
e Ele não hesitará em exterminar os hereges
Kari diz:
HAHAHAHAHHAHAHAH okay chega
to ficando com medo já
rodrigo diz:
ahfusdhusae
Kari diz:
conversa mais que produtiva
rodrigo diz:
vou postar no meu blog, ok?
xD

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Consequências da inconsequência.

Texto feito com base no tema proposto pela Flávia.

Era início de primavera. Para muitos, isto significa a renascença da alegria, mas para Seu Aldo Schroeder significava dinheiro no bolso. Ele possuía uma singela barraca de cachorro-quente, que garantia o seu sustento e o de sua família. Trabalhava arduamente de terça a domingo, sempre no período da noite, arrastando-se até a madrugada. Suportava frio intenso, transeuntes mal-intencionados e rapazes ébrios recém-saídos de noitadas inconseqüentes. Mas continuava lá, firme e forte com suas latas de milho verde e pacotes de farofa. Mas na primavera a história era outra.

Na última semana de setembro iniciavam-se os joguinhos abertos da principal universidade das redondezas. Centenas de jovens acadêmicos da faculdade Clemente Santino se reuniam para participar das competições amistosas entre os cursos, intensificando o movimento no campus. Era nesta época do ano que Seu Aldo se retirava de seu ponto fixo na movimentada avenida no centro da cidade para se instalar nas redondezas do ginásio universitário. Deixaria de lado os mendigos e os embriagados para, durante duas semanas, quintuplicar o seu faturamento diário às custas de afortunados e cheirosos jovens estudantes.

Chegou logo pelo início da manhã, na expectativa de começar a angariar fundos desde cedo, o que foi um equívoco de sua parte. As festividades esportivas só teriam início no horário da tarde. No entanto, pôde observar uma movimentação peculiar próximo a reitoria. Centenas de jovens confabulavam em frente ao prédio, aparentando um certo agito. Faixas estavam expostas e grupos distintos se identificavam usando camisetas de cores semelhantes. Seu Aldo não conseguia identificar com precisão o que constava em tais faixas, devido à sua idade avançada, mas concluiu ter relação com os jogos estudantis. Assentou-se à sombra de uma árvore próxima, de corpo imponente e frutos em fase de desenvolvimento. Instalou ali o seu humilde carrinho, com calma e simpatia. Cumprimentava os jovens que ali transitavam com um carinho quase fraterno, digno de um amável avô. Em poucos minutos os cães abandonados que na universidade circulavam já estavam fazendo companhia a Seu Aldo.

O som de buzinas a gás e o cântico uníssono dos jovens animava o vendedor, assim como o agito das faixas e os batuques em sincronia. "Vivazes estes infantes",pensou. Fazia muito que seus netos não o visitavam, o que lhe entristecia imensamente. Sentia falta das risadas e dos choros daquelas que um dia foram suas crianças. A juventude os atingiu e os fizeram esquecer de seu avô, para seu infortúnio. Estar ali, naquela universidade, presenciando tamanha energia, o fazia se sentir nostálgico em relação a algo que nunca pôde experimentar. A lágrima que escorria em seu rosto enrugado não tinha como ser definida: era um misto de tristeza e alegria. Estar tão próximo da juventude o fazia se sentir mais jovem. Lembrou dos tempos onde a insegurança e a incerteza o assolavam, e tinha de enfrentar tudo sem saber para onde ir. Lembrou da primeira namorada, das ideologias, das expectativas e do ímpeto insaciável de conhecer o mundo. Abriu o pacote de salsichas congeladas.

Após alguns minutos de preparo em água fervente, o odor característico do alimento começou a se espalhar pelo ambiente, naturalmente atraindo a atenção da massa nas proximidades. Seu Aldo ficou espantado com a reação dos estudantes: estavam todos inquietos, parecendo em transe. "Durante anos passei noites e noites me esforçando para me manter vendendo na noite sem nunca perceber que este lugar era uma mina de ouro!", refletiu. Ficou estupefato com o aparente sucesso de sua culinária urbana e começou a separar as moedas para distribuir os trocos. A multidão alvoroçada se dirigia à barraca do velho Schroeder, quando de repente o som ensurdecedor de um estridente apito ecoou sobre as cabeças que ali se encontravam.

Todos que ali estavam ficaram imóveis, fazendo Seu Aldo indagar o que poderia estar acontecendo. Do meio do aglomero surge um jovem de estatura média-alta, calças jeans surradas, camiseta preta e óculos com aros quadrados. Sua barba estava por fazer, encobrindo boa parte de seu rosto, assim como suas madeixas despenteadas. Ele caminha em direção a Seu Aldo de forma austera, enquanto todos o observam com atenção. "Bom dia, meu filho! Gostaria de um cachorro-quente?", pergunta ao jovem, com desmedida afetuosidade. "O senhor está maluco?", questiona pausadamente o jovem rapaz. O velho senhor fica perplexo com a audácia do estudante, e emudece tamanha a surpresa. "O que diabos você pensa que está fazendo aqui? Não tens noção do inconveniente?", continua. "Meu filho, o que lhe fiz de errado?", tenta apaziguar. O acadêmico vira para a multidão calada, esboça um sorriso irônico e se vira novamente ao vendedor, tomando de suas mãos um pão com salsichas e jogando-o no chão. O alimento ali esfacelado significava dois reais a menos para o esforçado trabalhador, mas isto pouco importava para todos ali presentes.

"Seu velho tolo e ignorante!" bradava ferozmente o descontrolado jovem. "É por causa de pessoas como você que o mundo em que vivemos está para entrar em colapso", continuou. "Você tem noção da quantidade de animais mortos que foram necessários para transformar isto que você chama de comida?". Suas veias saltavam, a saliva era expelida em grandes quantidades e seus olhos negros estavam inquietos. "Frangos, porcos, e sabe-se lá o que mais! E os corantes? Este lixo industrial é um veneno pra nós e pra natureza! A energia despendida pra produzir isto é algo que nem consigo imaginar!" Seu Aldo ficou petrificado, sem entender o que estava acontecendo. Tentou recuperar a calma, e logo buscou, com serenidade, seu par de óculos. Colocou-os pacientemente e olhou novamente ao seu redor. Arrependeu-se imensamente de ter escolhido se assentar naquele lugar ao descobrir que tamanho alvoroço era referente à uma manifestação do grupo vegetariano da universidade. Os acadêmicos descobriram recentemente que toda a carne utilizada nos restaurantes da instituição provinha de abatedouros clandestinos, o que foi o estopim para as manifestações, que haviam se iniciado naquela manhã. A mesma manhã em que Seu Aldo tinha escolhido para lucrar um pouco mais.

"Meu filho, me desculpe, não quis provocá-los", implorou o velho. A multidão não conteve as risadas e os batuques frenéticos. O jovem barbado e desleixado, que sem dúvida era o manifestante líder naquela situação, se aproximou do senhor e fitou-o agressivamente. Questionou: "Você está me achando com cara de palhaço?". Seu Aldo não conseguia disfarçar o nervosismo, não havia ninguém ali para lhe dar suporte. Nada de seguranças ou policiais. Ele só queria ir embora dali. "Sugiro que o senhor dê uma bela pesquisada em salsichas vegetarianas, sabe?", desdenhou o impetuoso ativista. "Além de mais saudáveis e ecologicamente corretas, tem um gosto melhor", continuou, derrubando no chão a panela repleta de água quente e salsichas. Seu Aldo cambaleou para trás na tentativa de fugir de possíveis queimaduras. Logo após o ato do jovem, vários outros estudantes avançaram e começaram a destruir a barraca de cachorro-quente. Os sons das buzinas e dos gritos, que antes energizavam Seu Aldo, agora o amedrontavam. Estava impotente perante a barbárie do futuro da nação. Após poucos minutos, nada mais restava além de metal retorcido e alimentos pisoteados. O líder dos manifestantes era ovacionado e erguido constantemente pelos outros jovens, sendo jogado para cima em uma celebração da incoerência.

Logo em seguida, o som das sirenes se aproximou, resultando na evacuação imediata do local. Faixas, latas de buzina e instrumentos musicais foram largados no meio da rua, fazendo companhia à barraca destroçada e ao pobre velho que jazia inconformado no meio-fio. Logo à sua frente, visualizou uma carteira abandonada. Pegou-a para tentar, talvez em vão, usá-la como evidência para os policiais que chegariam em breve. Indescritível foi o seu susto ao identificar ninguém menos que o jovem que há poucos minutos o insultava sem chance de defesa. Outra lágrima apareceu, mas desta vez ele tinha certeza que era apenas de tristeza. Não pôde acreditar ao ver o nome naquele documento: Aldo Schroeder Neto.

Quarta-feira, 4 de Março de 2009

A arte de não ter nada para escrever.

Imagino se os clássicos da literatura iniciados com o conhecido "era uma vez..." não tenham sido criados ao acaso e nas coxas, sem ter sido necessariamente uma idéia pré-concebida. Digo isso porque há dois minutos atrás eu não fazia idéia sobre o que escreveria, e adivinha como eu iria começar o texto? "Era uma vez..."

Não que eu esteja me comparando aos grandes literatos de outrora, pelo contrário. Estou passando por uma das piores fases de atrofia cerebral, onde o meu senso crítico está cada vez menos apurado, sinto-me incapaz de fazer análises profundas a respeito de algo e até me indago sobre a escrita de palavras simples, tendo de consultar o querido e estimado google constantemente. Devo isso a alguns fatores em especial:

- Falta de leitura. Sempre tive o prazer de ler, apesar de não cultivar tal atividade como gostaria. Porém, desde a metade do ano passado, rendi-me à leitura preguiçosa, de fácil digestão. Culpa da internet? Culpa minha.

- Intensificação da vida social e ébria. Existem momentos e momentos. Em alguns deles, queremos passar o dia de pijama, estudar e constituir uma família. Já em outros, queremos a libertinagem, a futilidade e porque não a promiscuidade. Ao momento, eu me encaixaria no segundo padrão. Não que eu esteja passando as minhas noites injetando drogas e participando de bacanais com transsexuais, mas confesso que estou dando prioridade às garrafas de heineken e não aos livros.

- Redenção ao trabalho escravo. Em meus empregos anteriores, sempre pude tirar meia horinha para masturbar a minha mente com textos supostamente bacanas à primeira vista, mas vazios em sua essência, disfarçados por uma construção estrutural aparentemente satisfatória. Hoje em dia é raro eu ter este tempo, visto que a demanda de anúncios pendentes a chegar em minha mesa aumenta em progressão geométrica. Levando em consideração que todo blogueiro que cria seus próprios textos se considera um "gerador de conteúdo", deixei de o ser faz tempo. Hoje, nada mais sou do que um publicitário automatizado, uma mera máquina criadora de anúncios, sem uma abordagem intelectual em meus trabalhos. Um peão da propaganda, trabalhando na linha de produção, sem o "glamour" da criação de novas idéias e conceitos para inspirar consumidores, mas sim gerando materiais como se fossem lanches de uma cadeia de fast-food. Existem várias opções de lanches, mas em sua essência são todos basicamente os mesmos.

São textos como este que você acabou de ler que me fazem pensar sobre determinadas obras clássicas humanidade (mais uma vez: pelamordedeus, não pensem que estou me comparando a algum autor relevante. Este é um texto inútil em um blog medíocre que ninguém lê). Não necessariamente Nietzsche tenha criado "O anticristo" com tal idéia em mente. Pode ser que, em uma bela manhã ensolarada de domingo ele tenha puxado uma folha qualquer e, de ressaca, tenha escrito: "Era uma vez um anticristo". Ok, péssimo exemplo. Horroroso exemplo. Mas tenha quase toda a certeza de que com LOST foi assim. :D

Ps: reparem como no último parágrafo usei argumentos pífios, demonstrando cansaço e desgaste do autor. Eliminar a preguiça mental é um trabalho árduo, amiguinhos. Um dia eu chego lá.

Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008

A voz do povo

Beto era simples porém feliz. Apesar de ter um trabalho aparentemente monótono e rotineiro, os seus dias sempre o reservavam alguma surpresa. Como boa parte dos cidadãos honestos e trabalhadores deste país, acordava em seu humilde casebre nos arredores da cidade e logo fazia o desjejum, que consistia de pães secos e leite. Tão logo que comia, saía apressado para pegar a condução, ou melhor, as conduções. O tráfego intenso e a distância complicavam a chegada de Beto ao seu lugar de trabalho, no centro da cidade, logo ele deveria se preparar cerca de duas horas antes do início de seu não tão puxado porém cansativo turno. O ônibus que o levava para cá e para lá era sempre apinhado de pessoas das mais distintas histórias: eram camareiras indo, prostitutas vindo e pobres senhores sem destino definido, apenas tentando vender - inutilmente - broches malfeitos e mal cuidados nos corredores apertados do veículo. Beto se sentia abençoado ao notar que a maioria das pessoas tinham uma vida ainda mais complicada que a sua, por mais cruel que fosse este pensamento.

Ao desembarcar no terminal central, Beto percorria o caminho mecanicamente. Inúmeras foram as vezes que foi sem nem perceber o que acontecia ao seu redor. Mas sempre observava os deficientes - era impossível não notar. Ele não entendia como poderia haver tantas pessoas com deformidades circulando em áreas urbanas. Não que ele fosse a favor do banimento de tais indivíduos, apenas não entendia o porquê de tanta desgraça ambulante. E por que apenas os pobres eram assim? Não existiriam ricos com iguais anomalias? Ou será que eles eram mantidos em sigilo, para que a alta sociedade não soubesse de tamanha vergonha? Isto o incomodava, mas não o bastante para tentar fazer algo em favor destes.

O sol escaldante não afetava Beto em sua jornada laboral, porém o calor incessante gerado pelos prédios, asfalto e veículos circundantes perturbava qualquer um que transitasse pelas ruas lotadas do centro da cidade. Em menos de duas horas em pé já era possível ver que pessoas com menor tendência a se expor a situações como esta não aguentariam o suor acumulado. Este em pouco tempo se transformaria em uma papa gordurosa e com um cheiro não muito agradável. Mas Beto suportava. Beto quase gostava. Apenas gostaria de ser melhor remunerado, mas tal situação era utópica e ele tinha ciência disso. A vida de um locutor de pseudo-lojas de departamento realmente não era das mais glamourosas, mas era a garantia do alimento de amanhã.

Sua voz característica era marca registrada na Rua Guararapes, conhecida pelos artefatos ilegais e de baixa qualidade. Beto anunciava durante todo o dia as diversas promoções da Casa Moda Fashion, que além de disponibilizar vestimentas populares possuía uma seção específica para eletro-eletrônicos de marcas menos conhecidas e por consequência mais acessíveis a todos. As promoções em questão não eram autênticas, elas apenas eram divulgadas mas o preço das mercadorias continuava inalterado. Indiretamente Beto ludibriava os pobres e ingênuos cidadãos que circulavam, mas ele nada podia fazer afinal tais mentiras sustentavam a sua família. Certa vez ele entrou em discussão com o seu chefe com a aparelhagem ligada, o que resultou em uma debandada geral dos clientes. A voz singular e icônica de Beto, típica dos locutores de lojinhas urbanas, sumiu e se transformou em algo comum aos ouvidos alheios, sem nenhum brilho - ou sem nenhum atrativo cômico para os jovens de classe média que passeiam pelas ruas da cidade com seus all-stares e iPods e caçoavam do timbre forçado de Beto. Após este episódio ele percebeu que no fundo é um ator, representando o tempo inteiro, fingindo ser alguém, encarnando um papel. Ele mentia para as pessoas o dia inteiro, pessoas desconhecidas, mentia tanto no discurso sujo quanto no seu ser ao modificar o seu jeito de falar.

Com o passar dos meses ele adquiriu uma dificuldade imensa em pegar no sono. A loja em que trabalhava começou a lucrar e a crescer e o segmento mudou. Agora a situação se invertia e o principal chamariz era a tecnologia. Tecnologia de terceira linha, direcionada para a classe CD, mas ainda assim tecnologia. O vestuário ia perdendo espaço e ficando destinada a uma modesta seção no canto da loja. As saias, as calças jeans e as jaquetas de napa davam lugar a televisores de vinte polegadas, aparelhos de CDs portáteis e sanduicheiras, todas com a opção de vinte parcelas no crediário. O movimento aumentou assim como o trabalho de Beto. Assim como o peso em sua consciência. Se antes as pessoas eram convencidas por sua voz a comprar moletons de cores berrantes e qualidade duvidosa por dezenove e noventa, agora se sentiam tentadas a despender quantidades consideráveis de dinheiro em máquinas de lavar.

Beto se sentia mal ao ver tantas pessoas se enforcando em dívidas dispensáveis e superficiais, e boa parte da culpa era dele. Ele sabia o quão difícil era para essas pessoas juntar dinheiro e reformar a casa ou pagar os estudos dos filhos ou então ampliar os negócios. Todo o dinheiro ia embora em objetos que com certeza não eram prioridade na vida deles e isso entristecia Beto. Pensou nos deficientes que passavam diariamente por ele. Pensou também nos parentes destas pessoas, que poderiam ter ajuda da comunidade para amenizar o sofrimento alheio. Pensou que talvez os próprios parentes se endividassem na antiga Casa Moda Fashion e deixassem as anomalias para lá. Mas Beto não podia deixar de exercer tal função, não havia outra alternativa. Era difícil para alguém como ele, maduro o bastante, conseguir outro emprego de uma hora para outra. Sentia-se um mero subalterno, enforcado e manipulado por outrem. Beto era simples porém feliz. Mas sentia um imenso vazio.

Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

ALKJS

Se eu estou infeliz no trabalho a culpa é minha ou do lugar?
Eu que sou incompetente ou a empresa que me deixa desestimulado a fazer um bom trabalho?

Sexta-feira, 21 de Setembro de 2007

Toalete da verdade

Jerry Seinfeld não é apenas um comediante. É um cara que, a partir do humor, consegue enxergar as nuances comportamentais do ser humano. Tanto em seu seriado quanto em seus shows stand-up, ele demonstra conhecer bem o mundo em que vive. De forma inteligente, ele transforma a nossa hipocrisia, egoísmo, frustração e muitos outros aspectos em humor. Diz ele, em um de seus episódios, algo como: "O homem só joga a sua cueca fora no momento em que ela está completamente inutilizável, encardida e toda rasgada." Não foi exatamente isso, mas tudo bem. Pois acabei de voltar de uma sessão de defecagem no banheiro do trabalho e vi que é exatamente assim que a minha cueca se encontra. Jerry Seinfeld, um gênio.

Quarta-feira, 4 de Julho de 2007

A busca pelo Wii - Parte I

Era o segundo dia do ano e eu estava a aterrisar novamente nas terras do nosso camarada Jorge Buche. Já por alguns meses eu importunava a patroa, falando incansavelmente desse novo brinquedo que prometia ser uma revolução no mundo do entretenimento eletrônico. Agora era a hora de ir atrás dele e, com isso, torrar todo o rico dinheiro que eu havia guardado com suor, trambiques e negociações ferrenhas. Meu objetivo era, ao quinto dia do mês, comprar o tão desejado aparelho, presenteando-me e me desejando feliz aniversário, em um ato de egocentrismo explícito. Então, após pentelhar os detentores dos automóveis mais próximos, fui eufórico para uma das lojas da principal (acho) rede de venda de jogos eletrônicos estadunidense: o GameStop.

Exemplo de loja da GameStop catado no Google.

Para mim, um mero cidadão de uma pseudo-maior-cidade-de-um-estado-do-sul-do-Brasil que mal topa com algum lugar que venda jogos eletrônicos, o GameStop era mais divertido que os brinquedos da Neverland (Jacko's), só que sem a pedofilia. Mas que beleza! Uma loja de médio porte recheada de títulos gamísticos, filmísticos e animesísticos. Dezenas de colecionáveis. Apetrechos para "envenenar" (ic!) o seu console. Fantástico. Para mim, só os jogos e aparelhos me interessavam, e era o bastante. Uma das prateleiras era reservada para ele, o meu objeto de desejo. O Nintendo Wii. De cima a baixo, jogos, controles, memory sticks e Wii Points. Ao lado, um televisor widescreen com uma demonstração não jogável estava ligado. E acima, uma caixa do console. Tremi na base, como diriam aqueles das gírias duvidáveis. Fui, em um inglês tímido e abrasileirado, pedir uma unidade para então me regozijar pelo resto do mês. O vendedor então me olhou com aquela cara de "Lamento, campeão. Você não conseguiu ser escalado para o time de futebol americano da nossa escola americana" e disse: "Foi mal, cara, mas tá em falta". Decepcionado, observei as prateleiras da loja assim como faz uma pobre criança marginal na frente de uma vitrine com o último modelo do tênis da hora. Fui para casa.

Os dias que se passaram foram semelhantes - no que diz respeito às tentativas frustradas de adquirir o Wii. As três semanas seguintes, para ser mais exato. Foram litros de combustível gastos, solas de calçados, energias e tudo o mais. Dezenas de lojas visitadas - BestBuy, Gamestop, Circuit City, Toys R Us, Sears, Wal Mart, Target e até a livraria Barnes & Noble - e nenhum Wii. Nenhum. E olha que foram duas cidades vasculhadas. Mas o que mais se ouvia era "Desculpa, mas está em falta", "A procura é muita", "Não temos previsão" e o quase inacreditável "A Flórida inteira está sem". Chegou uma hora em que eu, desesperado por ir embora sem o Wii, apelei: fui para o EBay.

Eu tinha como passatempo ir ilegalmente à faculdade com as minhas primas, e graças ao Wii deixei de ir alguns dias. E graças ao Ebay também. Para quem não sabe, grande parte dos produtos vendidos é por lance, diferentemente do nosso queridíssimo MercadoLivre, em que ao clicar em "comprar" o produto já é seu. No EBay, pelo menos nos produtos mais badalados, o que acontece é uma disputa digital acirradíssima, onde os lances são maiores a cada minuto. Passávamos boa parte do dia observando a quantidade escrota de Wiis sendo leiloados. Eram Wiis de todos os cantos da América (uma vez encontramos um que vinha da exótica Costa Rica). Os preços, obviamente, eram alguns dólares maiores que os normais, mas volta e meia encontrávamos um ou outro por U$270. Aí a alegria estava feita, pois faltavam apenas tres minutos para que os lances fossem encerrados. Quando víamos já estavamos na disputa. Trinta segundos e a felicidade seria nossa. Vinte e cinco segundos e o preço, que estava em 270 dólares, aumentava para caríssimos U$360, contrariando todas as leis da robótica (?). Já me via voltando para a minha terra apenas com a vontade de manejar o maravilhoso controle quase-fálico da Nintendo.

Hoje tá mais em conta. Ou não.

Pois um belo dia, taquei o foda-se e comprei. Sim, comprei um Wii no Ebay. U$375, se não me engano. "Foda-se a grana, vou torrar quase tudo só no Wii. Os jogos eu dou um jeito de comprar depois." Deu 5 minutos, contei para a minha prima, e a reação dela me fez me arrepender. "Seu tosco, etc.". No ato, deixei um recado para o feliz vendedor dizendo que não efetuaria a compra, e que aquilo tinha sido um ato impulsivo. Deixei o cara na mão, eu sei, mas naquela altura do campeonato eu já não me importava com isso. Recebi uma notificação do EBay de que teria a minha conta cancelada e mais um bocado de coisas que me fariam ficar levemente preocupado caso eu não estivesse quase saindo do país. Como eu não sou usuário constante do site - só fui durante Janeiro -, tanto faz se o meu nome está na lista negra deles.

Passadas estas emoções, voltei ao GameStop mais próximo. Os vendedores já deviam estar cansados de ouvir a mesma pergunta quase todos os dias. Eu já tinha comprado jogos usados de GameCube para compensar, além de um Ps2 para o meu primo (que joguei também, obviamente). Um tiozão que estava lá atendendo ainda não me conhecia e deixou escapar que no próximo domingo chegariam alguns poucos Wiis. Algumas pesquisas nos levaram a descobrir que uma loja maior - o BestBuy - receberia também no mesmo dia, porém seriam mais de cinquenta aparelhos. Já tinhamos o que fazer no dia.

No sábado que antecedeu o domingo (...), decidimos, para não perder a talvez última oportunidade de conseguir comprar, passar a noite em frente a loja. É. No lançamento do Playstation 2, lembro-me de ter visto em uma revista centenas de japoneses acampando do lado de fora para conseguir o seu aparelho. Na época achei loucura.

Fim da parte I - Provavelmente demorarei para postar a II.