O "Making Of" como desmistificador da realidade construída
O texto abaixo é meio que uma pseudo-sinopse do tema da minha monografia. Ao momento, está sem embasamento teórico, passível de modificações consideráveis, possivelmente contraditório em alguns momentos e com pontos de vista unilaterais.
Cada história é concebida com um objetivo específico. Seja apenas para mero entretenimento ou para mudar a forma de pensamento de seus espectadores, ela carrega em si alguns aspectos particulares. Quando ela se inicia, é feita a contextualização para o observador. A época, o lugar, a situação, entre outros são mostrados gradativamente, fazendo com que, aos poucos, o receptor passe a se inserir e crer no mundo em construção diante dele. Este mundo, por mais inverossímil que possa parecer, faz-se real dentro de seu contexto artístico. Por exemplo: a absurdez dos acontecimentos incomuns de “Alice no país das maravilhas” é evidente no âmbito da realidade como a conhecemos, onde o fantasioso inexiste na prática. No entanto, ao colocar tais características excêntricas dentro de um contexto “fechado”, como uma obra literária ou um filme, abrem-se portas para digerir o inaceitável. Camundongos podem falar, coelhos expressam emoções inerentes apenas aos seres humanos e transmutações fisiológicas ocorrem constantemente sem causar incredulidade no leitor (pelo menos não como se tais atos ocorressem no que chamamos de realidade.), desde que seja construída uma linha de raciocínio que permita tal liberdade imaginativa.
No caso de produções cinematográficas e televisivas, a construção da “realidade fechada” (péssimo termo, releve) vai além da narrativa e da construção teórico-ideológica. Ela explora, entre outros, o âmbito imagético, tornando possível na tela o que inexiste no local real de gravação, ou também transformando a localidade X na localidade Y, sempre se adequando e complementando o roteiro. Com o advento de tecnologias digitais, a verossimilhança se faz presente em diversas cenas, por mais incríveis que sejam. Modelagem em 3D, Chroma-keys, captura de movimentos, texturização, sonoplastia, dublagens, entre outros, fazem parte de um conjunto extenso de recursos criados para dar uma roupagem convincente ao espectador, inserindo-o na “realidade fechada” da obra, pois tudo isto não é exibido de modo cru na tela. O que vemos é o resultado final, a obra finalizada. Apesar de, na maior parte das vezes, sabermos que determinada cena tenha sido manipulada – digitalmente ou não -, estamos imersos para aceitarmos o que nos é exibido. É um comportamento recorrente dos espectadores, embora existam casos em que o “leitor”, carregado de ceticismo, enxerga a obra de forma analítica ou impalpável, invalidando todos os esforços para a constituição da obra como universo existente.
E é justamente esta invalidação o resultado de um Making Of. Ao expor minúcias dos bastidores e da produção, o espectador é extraído da “realidade fechada” e jogado novamente no contexto padrão, longe do fantasioso e do ilusório. Todo o universo outrora criado é deturpado pela visão da equipe de produção caminhando por entre os atores enquanto atuam, pelos equipamentos dependurados por entre os cenários fictícios e pelos polígonos ainda sem texturas que vão sendo aplicados em cada frame para gerar efeitos especiais. Desde o Making of em si até os comentários em áudio nos extras dos DVDs, passando por erros de gravação e outros, o conteúdo revelador desconstrói de forma imponente a concepção estabelecida pelo espectador durante o desenvolvimento da película. O “por trás das câmeras” é como a pílula vermelha de Matrix: uma vez ingerida, a verdade vem à tona e é impossível voltar atrás. Pode-se fazer um exercício de ignorância, tentando forçar um esquecimento, porém nunca é 100% eficaz. Por exemplo: na obra final, as cenas são “coladas” umas nas outras, dando a impressão de uma continuidade natural, porém o making of explicita que tais cenas são constantemente repetidas inúmeras vezes, com longas pausas entre um take e outro, incluindo momentos de descontração, ensaios, etc. Na edição, todos estes momentos “reais” são excluídos, restando apenas os fragmentos que constituirão a “realidade fechada”. Até a própria atuação, isolada de quaisquer recursos audiovisuais, pode se encaixar como um aspecto criador da fantasia. Mas, ao passo em que o making of aborda essa desconstrução, ele mesmo é uma obra editada e manipulada, tornando-se paradoxal em sua essência. Por mais que mostre os segredos dos bastidores, ele mesmo possui os seus segredos, por mais semelhantes que sejam aos de seu objeto de abordagem. Para um making of ser de fato alheio a interpretações “irreais”, ele deveria ser contínuo, imutável e intocável no que diz respeito a estímulos externos, como roteiros e adendos tecnológicos. Podemos fazer um paralelo para a criação de um making of “verídico” ao analisar o Dogma 95, movimento cinematográfico encabeçado pelo diretor Lars Von Trier, em que são proibidos os usos de determinados vícios hollywoodianos como iluminação artificial e filtros, assim como deslocamentos temporais na trama. Lógico, apesar de utilizar de regras que zelam pela verossimilhança, ainda assim é um filme, com atuações e falas pré-estabelecidas, tirando o valor pleno de realidade. No entanto, no que diz respeito a um making of, seria possível?
